ARQUITETURA

Nos últimos anos, o edifício no qual eu morava foi perdendo a cor das paredes. Foi ganhando marcas e rachaduras, foi quebrando pedacinho por pedacinho. Ganhou infiltrações, mofo, fios expostos. Tudo aconteceu de forma lenta e vagarosa, porém, era perceptível que o edifício estava cada vez mais frágil. Tinha sorte por morar em um país onde não ocorrem catástrofes climáticas. O coitado não iria sobreviver! Mas quem disse que terremotos só ocorrem na natureza? A vida estremece tanto quanto um terremoto de magnitude 7.0 na Escala de Richter. E a minha estremeceu.

E o edifício caiu. Desmoronou. Desabou. Virou pó. Acabou.

Fiquei alguns meses focada apenas em retirar todo aquele entulho dali. Foi caótico! Um trabalho e tanto. Não tive muita ajuda, o que tornou o processo ainda mais cansativo. Retirava dali parte por parte daquele mundo que havia se reduzido à um emaranhado de cimento e cinza. Tropeçava em lembranças de vez em quando, mas, no fim, via que não tinha como resgatá-las. Tudo acabou indo para fora dali. Toneladas e toneladas do que um dia já foi concreto. Não quis guardar nada, não. Nem um ganchinho sequer. Só queria recomeçar.

E, de repente, não mais que de repente, eu estava em um terreno vazio. O chão era de terra batida, de cor avermelhada. O céu estava encoberto e não saia sol, apesar de conseguir sentir o calor que emanava dele. Nada em volta, além de poucas árvores e alguns pássaros cantando. Apesar da estranheza da situação, eu não estava com medo. Sabia que estava ali por um nobre motivo: construir um edifício para a minha alma morar. Construir um lugar só meu. Do zero.

Eu não tinha nenhum manual, nenhuma ideia, nenhuma luz. Estava completamente perdida e assustada com a ambição de tal feito. A única coisa que eu sabia era que eu precisava construir alguma coisa. Andei um pouco pelas redondezas, a fim de reconhecer o terreno. Encontrei um depósito com todo o tipo de material à minha disposição. Tudo o que eu precisava para construir um novo edifício estava ali, bem na minha frente. A partir deste momento, as ideias começaram a aparecer. Comecei a ler sobre o assunto, escrever também. Comecei a fazer planos. Comecei a coloca-los em prática. Não parei mais.

Comecei construindo coisas pequenas, um pouco desengonçadas, as quais depois percebi que não teriam utilidade nenhuma. Errei muitas e muitas vezes. Adquiri a consciência do quanto este projeto é grandioso e que, para dar certo, não pode ser feito com pressa. Tem que ter foco. Tem que ter determinação. Há de ser feito sozinho. Deve se manuseado com cuidado, carinho e atenção. E deve ter entusiasmo: não posso pensar no quão trabalhoso será, no quão cansativo será ou no que pode dar errado.

Me encontro em plena arquitetura de mim mesma. Estou me projetando, me edificando, organizando meus espaços e elementos. Uma coisa de cada vez, para que tudo fique firme. Não vejo a hora de decorar cada canto de mim, de acrescentar novas cores às minhas paredes, de espalhar flores pelos novos ambientes e de acrescentar novos itens à minha morada. Descobri que a palavra arquitetura, do grego, significa “primeiro” ou “principal”. Nada mais significativo. Estou naquele momento egoísta, mas essencial, de cuidar dos meus próprios interesses. De mim, só de mim.

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VEJA BEM, MEU BEM

Veja bem, meu bem, não quero muito de ti. Não espero nada além da arte do encontro. Não me importa o que virá dele antes, durante ou depois. Realmente não me importa. Não posso afogar em mim algo que grita por ar. Afogo expectativas, afogo pensamentos, afogo agonias. Não preciso tê-las. Mas afogar a vontade inegável e explicita do encontro seria quase que um desperdício. Aconteceu você. Vinicius, meu tão amado poeta, já dizia: a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Veja bem, meu bem, o que tenho por ti pode ser definido por uma palavra doce e muito querida por mim: ternura. Sim, é exatamente isso. É um transbordamento tenro de boas intenções, um sossego, um cuidado. É afeto. Algo que não vem acompanhado de nenhum sentimento exacerbado, de nenhuma lágrima exasperada, de nenhuma promessa fascinante e de nenhuma palavra misteriosa. É doçura, encantamento, aceitação. É sentir o perfume que sai do teu sorriso. É simplesmente te querer bem, acima de muitas coisas.

É, meu bem, entendo que, por muitas vezes, te assustei com um pseudo-desespero meu. Devo ter te assustado com a minha desequilibrada intensidade, com a minha exagerada pressa, com minha aumentada necessidade de obter respostas. Defeitos. Todos temos. E agradeço a maneira pela qual você tem lidado com os meus. Peço desculpas por tudo ser assim, tão de repente. Se bem que já concordamos que isso se trata de um reencontro. Já não sei mais se foi tudo tão de repente assim!

Veja bem, meu bem, só espero o encontro. Um encontro para o absoluto de nós mesmas, para a amizade e o socorro. Sem medo de ferir ou ferir-se. Que seja estrelado, embalado por risos soltos. Que deixe boas e marcantes lembranças. E que seja, sempre, tenro. Penso que a vida é excessivamente grave. Te vejo logo, ainda na primavera, para florescer meu bem… Para florescer.

DJAVAN

Me sinto quase que obrigada a homenagear Djavan. Ele e seu oceano, o deserto, seus temores. Ele e seu olhar, que não diz de exato quem és, mas devora. Ele que sabe que um amor puro não sabe a força que tem. Que longe da felicidade e todas as suas luzes, deseja mais que o ar, mais que tudo. Que contra o poder do amor, cai nos pés de um vencedor para ser um serviçal de um samurai. Que deu seu coração, com toda força, para a moça o fazer feliz… Logo quando o destino não quis o ver como raiz de uma flor de lis.
Ele, assim como eu, só procura o elo com todas as cores para enfeitar amores gris. É tanta sintonia com essa obra prima deixada por ele! É tanto amor, tanta dor, tantos sentimentos complexos e sutilmente desvendados. Reluz. Clareia. Exata. Desde pequena ouço, me encanto, me acabo. Tenho do seu patrimônio a trilha sonora da minha vida. Momentos bons e ruins. Mas sempre musicais. E aprendo. Com cada melodia, cada letra, cada arrepio frio.
Em um dia frio, sim, faz-se um bom lugar para ler um livro. E, exato, com o pensamento em você… Sei que sem você não vivo. Nos dias tristes, sim, meu caro, toda fragilidade incide, tudo se divide. Concordo que por ser amor, revela-se e fim. Tudo faz sentido, tudo classifica a vida, tudo explica o mistério de cada dia.
Graças a você, que talvez nunca venha a saber da minha admiração, procuro cor onde tudo é cinza. Procuro a mim mesma e ao mundo com uma imensa sede de sensibilidade. Procuro sorrisos de gente desconhecida, procuro crianças brincando no parque, procuro casais de idosos ainda apaixonados, procuro pássaros cantando, procuro pessoas cantando, procuro abraços sinceros, procuro diálogos inesperados, procuro olhares profundos. Procuro a paz que uma criança dormindo em seu colo é capaz de transmitir, procuro o encontro, procuro a tele, procuro o aqui e o agora. Procuro ser toda em tudo que faço, ser tua em tudo que é nosso, ser sozinha em tudo que é meu.
Eu quero ver o por do sol, lindo. E quero gente pra ver e viajar no seu mar de raio. Quero os pés na areia, os pés no mar, o aconchego do sol. Quero viver tudo aquilo que você poetizou tão lindamente. Quero que a vida seja meu bem querer, segredo, sagrado, sacramentado em meu coração. Quero djavanear. Eternamente djavanear.

AO MEU FUTURO AMOR

Sofro de saudade daquilo que ainda não vivi. Uma saudade insana e imensa. Tenho saudade do aconchego da casa que ainda não é minha, do criado mudo ao lado da cama, dos quadros espalhados pelas paredes, das flores distribuídas pelos cantos. Tenho saudade das lembranças que me serão queridas, do conhecimento que ainda vou adquirir, das experiências que me tornarão cada vez mais forte. Tenho saudade das viagens incríveis que ainda não fiz, das amizades que ainda não se enraizaram, dos momentos de plena felicidade que ainda estão por vir. Mas, principalmente, sinto saudade do amor que ainda não vivi. De você. De nós.

Eu ainda não te conheço muito bem, mas já sinto saudade dos seus olhos pousando nos meus. Olhos que demorei tanto para desvendar, mas que se tornaram tão conhecidos, doces e essenciais. Sinto saudade de dormir e acordar ao seu lado. Saudades de ouvir tua voz rouca pela manhã, mansa durante a tarde e cansada ao anoitecer. Sinto saudades do teu cheiro no meu travesseiro, da toalha molhada esquecida em algum canto da casa, das suas roupas aconchegadas dentro do armário. Sinto saudade de abrir a geladeira e encontrar seu suco preferido, seu café da manhã, almoço e jantar. E saudades de ver a nossa foto, presa com uma imã, ao fechar a porta da mesma.

Sinto saudades do modo pelo qual você me ganha todos os dias. Saudades das surpresas que você me faz. Saudade dos cartões de aniversário que você me escreveu, dos presentes que já me deu, das palavras que já sussurrou no pé do meu ouvido. Saudade dos seus abraços apertados nos momentos de sufoco e soltos nos momentos de felicidade. Saudades da sua mão em meu rosto e da segurança dos teus braços. Tenho saudade até dos teus pés gelados no inverno, que teimavam em encostar nos meus.

Sinto falta do teu sorriso, que surge a cada vez que me vê. Surge arrebatador e perfeito. Surge em todos os nossos momentos de cumplicidade. Saudades dos domingos de chuva ao seu lado, cheios de preguiça e sensibilidade. Dos filmes, das músicas, do cheiro de pipoca invadindo a sala. Sinto falta das nossas conversas sobre o Universo e suas manifestações. Das suas dúvidas sobre física ou química. Das nossas risadas ao compartilhar a ignorância nestes assuntos.

Sinto falta do teu cuidado quando estou doente, do chá que você me serve para me curar da tosse, do edredom que você faz questão que pouse sobre mim nos dias frios. Sinto saudade das tuas mãos delicadas que, todos os dias, me acariciam de maneira leve e amorosa. Sinto saudades do seu interesse em saber como foi meu dia, como foi o meu trabalho, como está a minha vida. Sinto falta dos teus conselhos, das tuas broncas e da tua insistência irritada ao querer fazer eu parar de fumar.

Tenho saudades das tardes que passamos cantando ao som do violão, dos amigos que recebemos em nossa casa, dos restaurantes que frequentamos, das peças de teatro que assistimos, das vezes que fomos ao cinema. Tenho saudades dos porres que tomamos, das vezes que dançamos até o amanhecer, das festas que lembramos até hoje. Saudades das loucuras que já fizemos, da imaginação rolando solta, das declarações inesperadas. Saudades das nossas gargalhadas, que surgiam da nossa mania de se alegrar por qualquer coisa.

Tenho saudade até das nossas brigas. Tenho. Elas sempre acabavam em sorrisos e sinceridade. Tenho saudade dos nossos diálogos, dos nossos planos, das nossas discussões divertidas sobre qual seria o nome dos nossos filhos e qual seria a raça do nosso cachorro. Tenho saudade do nosso respeito, da nossa fidelidade, da nossa liberdade, da nossa lealdade. Tenho saudade de como éramos tão diferentes, mas essencialmente tão iguais. Tenho saudade dos seus defeitos. Até eles me encantam.

Tenho saudade da maneira divertida na qual você implicava comigo, das nossas guerras de travesseiro, do nosso jeito de sermos crianças de vez em quando. Tenho saudade de te admirar. Te ver você crescer. De comemorar casa conquista tua, de te apoiar em cada decisão, de te amar tanto a cada segundo que passa. Tenho saudade do que construímos, do que vivemos, do que prevemos. Tenho saudade de tudo em você.  Da tua estranheza tão parecida com a minha. Do jeito que você anda. Da maneira como pega na minha cintura. Do encaixe do meu corpo com o seu. Do seu riso. Será que está sorrindo agora?

Eu sei que você existe. E sei disso porque sinto a sua falta. Como eu poderia sentir saudades de algo que não conheço? Ah, amor, eu te conheço muito bem. Estou aqui vivendo como se não me importasse com a sua vinda, mas, na verdade, vivo pois estou certa de que haverá o momento do nosso reencontro. Dizem que é sempre bom ouvir a nossa intuição gritar. E a minha já grita por você. Ouça. Entenda. Venha.

EM BRANCO

Aqui estamos: eu e uma página em branco. Ela me encara de uma maneira quase ofensiva, duvidando da minha capacidade de escrever e distribuindo ironias às minhas intenções de retorno. Ela não parece muito contente em me ver. Mas eu a encaro, assim como encaro o desafio de começar a preenchê-la. Não procuro esconder meu nervosismo. Deixo que ela escute a disritmia instalada em meu peito. Deixo que ela saiba que vim em paz, por paz, capaz.

Eu entendo seu comportamento. Deve ter sido muito difícil observar o meu interesse por páginas que não tinham nada a me oferecer. Eu estava ali, em meio a um rodamoinho de páginas soltas, procurando juntá-las em um livro de amor. Mas jamais consegui colocá-las em ordem. Era um esforço tremendo, um desafio desgastante, uma teimosia quase que ininteligível. E ela, a página que agora me encara, estava de fora, observando tudo sem poder fazer nada. Deve ter sido terrível.

Deve ter sido igualmente aterrorizador me ver distraída e mergulhada em páginas confusas, mentirosas, destrutivas. Deve ter sido difícil observar que eu estava ali, absorta em páginas amareladas, desgastadas, rasgadas e cheias de rabiscos sem sentido. Eu estava ali vasculhando um passado, sem olhar para o presente, que, todo dia, me oferecia uma página branquíssima para que eu começasse de novo. Tentava preencher, com pedaços meus, páginas que eram egoístas, que não me davam espaço para ser quem eu precisava ser. E eu não conseguia ser nada. Nem eu, nem toda, nem só.

Não achei necessário queimar todas essas páginas e reduzi-las à pó. Não precisei vê-las desintegradas ou na forma de cinza. Não precisei vê-las frágeis ou embaixo dos meus pés. Precisei apenas me afastar. Dei alguns passos para o lado, saí do rodamoinho de páginas soltas e fiquei um tempo observando todo aquele caos. Fiquei triste. Angustiada. Chocada. Mas, finalmente, percebi que eu não precisava mais ficar ali. Não fazia sentido. Dei mais alguns passos, então, sem saber muito bem para onde eu estava indo. Só sabia que precisava sair dali. E sai.

Depois da longa e cansativa caminhada para me afastar de tudo o que não fazia mais sentido, estou aqui. Estou aberta para que o novo comece. Ainda me sinto perdida e anestesiada. Ainda me sinto sozinha e cansada. Ainda sinto que perdi todos os meus porto-seguros. Ainda sinto culpa, ainda sinto tristeza, ainda sinto estranheza. Mas também sinto coragem. Coragem de reconstruir. Tudo de novo. Mais uma vez.

E aqui estamos: eu e uma página em branco. Eu e o meu recomeço. Eu e o que eu quiser que seja. Eu e tudo o que há em mim. Eu e o meu Universo. Eu e a tinta que corre nas minhas veias, prontos para preencher o branco bom da vida.

Bem vindos ao desanuvio!