EM BRANCO

Aqui estamos: eu e uma página em branco. Ela me encara de uma maneira quase ofensiva, duvidando da minha capacidade de escrever e distribuindo ironias às minhas intenções de retorno. Ela não parece muito contente em me ver. Mas eu a encaro, assim como encaro o desafio de começar a preenchê-la. Não procuro esconder meu nervosismo. Deixo que ela escute a disritmia instalada em meu peito. Deixo que ela saiba que vim em paz, por paz, capaz.

Eu entendo seu comportamento. Deve ter sido muito difícil observar o meu interesse por páginas que não tinham nada a me oferecer. Eu estava ali, em meio a um rodamoinho de páginas soltas, procurando juntá-las em um livro de amor. Mas jamais consegui colocá-las em ordem. Era um esforço tremendo, um desafio desgastante, uma teimosia quase que ininteligível. E ela, a página que agora me encara, estava de fora, observando tudo sem poder fazer nada. Deve ter sido terrível.

Deve ter sido igualmente aterrorizador me ver distraída e mergulhada em páginas confusas, mentirosas, destrutivas. Deve ter sido difícil observar que eu estava ali, absorta em páginas amareladas, desgastadas, rasgadas e cheias de rabiscos sem sentido. Eu estava ali vasculhando um passado, sem olhar para o presente, que, todo dia, me oferecia uma página branquíssima para que eu começasse de novo. Tentava preencher, com pedaços meus, páginas que eram egoístas, que não me davam espaço para ser quem eu precisava ser. E eu não conseguia ser nada. Nem eu, nem toda, nem só.

Não achei necessário queimar todas essas páginas e reduzi-las à pó. Não precisei vê-las desintegradas ou na forma de cinza. Não precisei vê-las frágeis ou embaixo dos meus pés. Precisei apenas me afastar. Dei alguns passos para o lado, saí do rodamoinho de páginas soltas e fiquei um tempo observando todo aquele caos. Fiquei triste. Angustiada. Chocada. Mas, finalmente, percebi que eu não precisava mais ficar ali. Não fazia sentido. Dei mais alguns passos, então, sem saber muito bem para onde eu estava indo. Só sabia que precisava sair dali. E sai.

Depois da longa e cansativa caminhada para me afastar de tudo o que não fazia mais sentido, estou aqui. Estou aberta para que o novo comece. Ainda me sinto perdida e anestesiada. Ainda me sinto sozinha e cansada. Ainda sinto que perdi todos os meus porto-seguros. Ainda sinto culpa, ainda sinto tristeza, ainda sinto estranheza. Mas também sinto coragem. Coragem de reconstruir. Tudo de novo. Mais uma vez.

E aqui estamos: eu e uma página em branco. Eu e o meu recomeço. Eu e o que eu quiser que seja. Eu e tudo o que há em mim. Eu e o meu Universo. Eu e a tinta que corre nas minhas veias, prontos para preencher o branco bom da vida.

Bem vindos ao desanuvio!

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3 comentários sobre “EM BRANCO

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