REVELE-SE, MENINA.

Ela estava entediada. Se sentia muito sozinha, estava triste e vazia. Procurava, desesperadamente, se encontrar. Procurava cuidar de tudo o que não estava indo bem, mas não obtinha muito sucesso, se sentia azarada e quase que amaldiçoada com aquela fase de sua vida. Foi quando encontrou um bilhete, em cima da escrivaninha do seu quarto:

 Você sabe quem és, não sabe? Você se conhece como ninguém. Mas será que quem te vê consegue perceber a tua existência da mesma maneira que você? Qual é a imagem que você passa? Essa imagem está de acordo com o que você considera real e seu? Te observaremos por 4 dias. O nosso objetivo é descobrir quem você é. Você foi escolhida para participar deste projeto. Esperamos uma resposta. Revele-se.

Ela respondeu que sim, claro. Não poderia ser diferente. Ela era uma menina muito corajosa, apesar de não saber dosar esta coragem muito bem. A coragem dela ficava guardada dentro de um pote bem bonito e ornamentado, um de seus preferidos. Quando esvaziado, o pote demorava dois ou três dias para voltar a ficar cheio. E, essa menina, muito intensa e impulsiva, usava a coragem toda de uma vez. Ela nunca se preocupava em guardar um pouco para os próximos dias. Arrumou sua mala, pegou o carro e foi. Usou a coragem toda, até a última gota.

Ela, naturalmente, ficou muito sem graça nos primeiros dias de observação. Chegou sem nem um pingo de coragem naquele pote! Ela ficou muito quieta, sem dizer muito de si, sem dar muita opinião sobre o que lhe era perguntado ou apresentado. Também não sorria muito, estava tensa, ficava séria a maior parte do tempo. Ela estava desconfortável, não com o ambiente ou com as pessoas que a observavam, mas consigo mesma. Ela estava achando tudo incrível, mas não conseguia expressar isso. Travou músculos e sorrisos. A única coisa que permanecia livre era a sua mente.

Ela queria mostrar quem era, mas, ao mesmo tempo, estava sob efeito de uma enorme e desconfortável pressão. As mãos suavam, o estômago doía, a boca secava. Ela simplesmente não conseguia lidar com aquela situação. A coitada não conseguia nem se mexer direito. Era como se tivesse desaprendido a ter coordenação motora. Ela sentiu vontade de ir embora, de sair correndo, de chorar no banheiro. Ela sentia que estragava tudo a cada segundo, que incomodava a todos, que estava tudo indo de mal a pior. Ela só queria que soubessem que aquela não era ela, mas ela não fazia a menor ideia de como fazer isso. Como podemos mostrar quem somos? Como exteriorizar o interior?

Eles observaram tudo. O rosto, o corpo, os olhos, a boca, os dentes. Observaram seu cabelo, suas mãos, seus pés e suas unhas. Observaram suas tatuagens, as roupas que vestia, o modo no qual penteava o cabelo. Observaram como organizava seus pertences na mala, como escovava os dentes, a ordem que dava para as coisas quando estava se arrumando para sair. Observavam quantas vezes mexia no celular, como respirava, como ria, como dormia. E ela não tinha quase nenhum feedback. Não sabia o que estavam achando dela, que anotações estavam fazendo, a que conclusões estavam chegando.

Observaram como ela andava, como ela falava, como ela comia. Observaram como ela se comportava, como ela gostava de olhar as estrelas, como ela dormia, como ela dirigia, como ela reagia a cada situação que lhe era apresentada. Tudo foi observado. Cada detalhe. Cada milímetro. Mas, preocupada, a menina achava que não estava sendo ela. Achava que estava estranha, longe do que considera normal. Ela não queria que achassem que ela era menos do que ela sabe que é. Ela queria agradar e, no fim, se perdeu.

Ah menina, quanta bobagem! Você é o que é! Você também é nervosa, travada e quieta. Você não tem só qualidades, sabes disso. Você é formada por um sistema complexo que só você entende,  só você conhece, só você sabe lidar. Algumas pessoas, mais sensíveis, conseguem te enxergar de uma maneira muito próxima da qual você mesma se enxerga. Na verdade, nem enxergam, sentem. Você tem sorte menina, passa o que és pelo olhar. E algumas pessoas sabem disso.

Ah menina, esquece o que os outros pensam. Não se esforce tanto. Você não precisa mostrar nada para ninguém, a não ser para você mesma. Quando você sabe quem é, quando você tem segurança de seus valores e pensamentos, quando você se conhece bem, acaba a necessidade de se afirmar. Seja você, menina. Não se preocupe com rótulos ou julgamentos. Ninguém sabe quem és, além de você.

Ah menina, você não é as musicas que ouve, os filmes que assiste, a faculdade que faz, os livros que lê, a religião que segue, as crenças que tem, as roupas que veste, as cores que gosta. Você não é aquilo que fala, aquilo que defende, aquilo que compra, aquilo que come ou bebe. Você não é os seus hábitos, os seus costumes, os relacionamentos que tem. Você não é algo palpável. Não menina, nada disso diz quem és. São coisas muito pequenas perto da sua imensidão.

Menina, menina… O sentido de tudo está em ti. Até o sentido da sua loucura. Decifre suas charadas. Desvendá-las te manterão cada vez mais forte. Se sentir sozinha é algo que não se pode evitar, mas, menina, você sabe como sair daí. Faça mágica, sem precisar de capa. Tenha consciência de quem és todo dia, todo momento, mas, menina, tenha consciência do outro também. As vezes, cuidar do outro também é cuidar de si. Ver o outro feliz também é ter felicidade. Não há necessidade de egoísmo.

Logo que chegou em casa, havia outro bilhete ali em seu quarto. A menina sorriu, se libertou, evoluiu, reconstruiu. Ela sempre gostou de aprender, de conhecer, de questionar. A menina percebeu, enfim, que é ela que gira o seu próprio mundo. Ela e sua mente, livres. Descobriu uma flexibilidade deliciosa e livre de poder decidir como se quer viver. Ao ler aquele bilhete, tudo fez sentido, tudo se encaixou:

Nada do que foi percebido durante a observação diz quem és. Tudo o que foi observado são apenas fragmentos de uma totalidade que te representa. Você não é só um corpo, só um comportamento, só um conjuntos de gostos e desgostos. Nada do que é passível de ser observado em você te define. Você é algo muito maior. E você é a única que pode perceber isso. Comece agora. Revele-se. E lembre-se: você é incrível.

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