MONTANHA RUSSA

Eu sempre tive um medo danado de montanha-russa. Talvez quem me conheça há muito tempo possa parecer surpreso com essa confissão, afinal, eu era sempre a primeira da fila e a mais empolgada para percorrer os trilhos de aventura e êxtase que existem por aí. Até chegava a verbalizar que não tinha medo. Meu rosto não transparecia o mínimo incômodo. Olha, eu tinha medo sim. Tenho medo sim. Mas também tenho coragem para enfrenta-lo. A coragem sempre foi maior que o medo por aqui.

Quando sento na temida cadeira e me preparo para colocar o cinto de segurança, a primeira coisa que passa pela minha cabeça é: “Que merda que eu estou fazendo aqui?!” É. Tenho vontade de fugir, de desistir, de sair correndo, de ir para casa, para a minha cama, para a minha mãe. Mas algo me impede, algo me força a enfrentar meus piores inimigos. Sempre foi assim. Essa força estranha dando as caras nos momentos difíceis… Acho simpático. Um souvenir da vida.

Eu tenho quase certeza de que enfrentaria todas as montanhas-russas que existem nesse mundo. A intensidade do medo iria variar, assim como os sintomas advindos deste. Mas sim, eu enfrentaria. No final, acaba valendo a pena. A coragem é ótima para a auto estima, por isso saímos sorrindo feito bobos do brinquedo. Só tem uma montanha-russa que ainda me trava e me bota um medão: a que vive dentro de mim.

Toda montanha-russa me traz duas sensações: a do medo e a da liberdade. O medo é de enfrentar o desconhecido e a liberdade é de ter, primeiro me permitido à vivenciar a aventura e, depois, superado o temor com um sorriso largo no rosto. A minha montanha-russa interna não é diferente, não. Também traz medo e liberdade. Ela passeia entre o imediatismo e a calma, com loopings em determinados momentos. O imediatismo é medo. A liberdade é calma.

E olha, se eu tivesse apenas uma montanha-russa aqui dentro, seria bacana. Mas não. Tenho um parque de diversões inteiro! De longe, o brinquedo mais assustador do meu parque de diversões interno é uma montanha-russa que se chama “Relacionamento”. Só de olhar para ela já tenho frio na barriga, borboletas no estômago, arrepio na espinha. Mas eu entro na fila. E entro de peito aberto e cabeça erguida: “Vai dar tudo certo! Eu vou conseguir!” E quero tudo agora. Quero viver tudo de uma vez. Quero ir logo, rápido! Me entreguei, não está vendo? Imediatismo. Medo.

Conforme a fila vai avançando, começo a sentir esse medo chegando. No começo é fácil de controlar, ainda nem sentei na cadeira, ainda nem coloquei o cinto. Afasto os pensamentos ruins rapidinho! A empolgação para viver esta aventura é muito maior que qualquer receio bobo. Conforme vou chegando mais perto da montanha, o medo vai aumentando. Começa a passar um monte de coisa pela cabeça. Penso em desistir. Mas, calma, já vim até aqui, já passei um tempão nesta fila… Acho que devo continuar. E continuo. Um pouco menos imediatista, continuo.

Quando sento na cadeira, a única coisa que penso é em ir embora. O medo é imenso. Quase que toma conta de mim. Mas acho que descobri o que faz toda a diferença para que eu me entregue aos rodopios em trilhos de aço: o cinto de segurança. Segura, eu vou. Checo algumas vezes o cinto, verifico mais de uma vez as travas. Estou segura? Vambora.

Eu enfrentei fila, enfrentei pensamentos, enfrentei medos, enfrentei desespero, quis tudo de uma vez, quis o nada também. Mas, com o cinto de segurança, com as travas fechadas, com a certeza de que aquela cadeira não vai me soltar pelos ares, fica tudo bem. A única coisa que eu preciso é de segurança. Da certeza que não vou despencar, me machucar, acabar espatifada no chão. Chega, finalmente, a calma. E, com a calma, liberdade.

A partir  daí, creio que viramos nós: eu e a minha cadeira. Entre as duas, terá segurança. E assim, podem vir subidas, descidas, loopings. Que venha a adrenalina, a felicidade, a gargalhada. Que venha o vento no rosto, o sorriso largo, a sensação de que o mundo foi ganho. O segredo da montanha-russa é um bom cinto de segurança.

Já sentei na cadeira… Ei! Onde aperta o cinto, moça?

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