BRUMA

Engraçado como ela sempre se mantinha acordada. Não importa o quanto estivesse cansada, ela sempre foi a última a dormir. Dormia seu pai, sua mãe, seus irmãos. Dormia o cachorro e a noite, em um silêncio absoluto e reconfortante. Mas ela insistia em manter seus grandes olhos abertos, para acompanhar os pensamentos que insistiam em aparecer, sem estes darem a menor chance dela desligar-se deles.

Ela sempre admirou àqueles que dormem a qualquer momento e em qualquer lugar. Os que dormem no sofá vendo televisão, os que dormem no cinema enquanto o filme está passando, os que dormem na canga estirada na areia, os que dormem no ônibus, no carro, no trem e no avião. Sempre admirou os capazes de deitar, mesmo que em um colchão duro, e desligar-se do mundo em busca de conforto, sono e sonhos.

Ela pensava demais em tudo. Achava um desperdício apagar-se da realidade. Mas, apesar dos olhos abertos, ela ainda era capaz de sonhar. E gostava de fazer isso sozinha, enquanto todos degustavam de um sono profundo e imediato. Assim, ela podia olhar ao redor como se estivesse sozinha, como se ninguém estivesse observando suas feições e reações. Esse era o único momento que ela gostava de estar só: na presença e ausência do outro, que acontecia concomitantemente. Presença física e ausência mental.

Ela não dormia em viagens. Ela sempre virou madrugadas. Ela raramente dormia antes da pessoa amada: um de seus hobbies preferidos era observar o sono de quem estava ao seu lado, acompanhando a respiração da mesma com toques sutis, carregados de carinho, postos no rosto da pessoa adormecida. Bela e adormecida.

Ela fica acordada sozinha com seus fantasmas. Fica sozinha com os seus segredos mais íntimos e particulares. Enfrenta cada um de seus monstros, com uma mistura antagônica de medo e coragem. É ali, no escuro, no silêncio, na percepção da bruma da noite, que ela se transforma – cordial e lentamente – em mulher.

Mulher da qual se orgulha com desconfiança, porém, com esperança. Esperança de alcançar com êxito o seu único propósito existencial: amar. Ela, com os olhos esbugalhados na noite adormecida, queria somente amar em paz. E, ingênua, ainda se confundia: a paz estava no sonho ou na realidade?

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