O MEIO DO CAMINHO

Ela não tinha mais forças. Qualquer tarefa parecia impossível de ser realizada. Abrir os olhos e levantar da cama já era algo absolutamente exaustivo. Mas, em um destes dias exaustos, ela percebeu que o mundo estava em movimento: o tempo não havia parado para que ela pudesse se recompor. Foi, então, num ímpeto de energia, que ela decidiu seguir um caminho. E logo que decidiu, já deu o primeiro passo.

Começou deixando para trás aquilo que não lhe pertencia. Deixou que se afastassem os pensamentos melancólicos e derrotistas, deixou que fossem embora todos os males sentimentais e as chagas de espírito. Percebeu que havia muito a ser feito, mas que, naquele momento, ela só tinha condições de cuidar do seu exterior. “Mudar por fora, para depois mudar por dentro. Assim é mais fácil.”, pensou.

Voltou a se alimentar, a cuidar da pele, cabelos e unhas. Lia bons livros, escrevia alguns textos, se exercitava algumas vezes na semana. Voltou a frequentar a faculdade e a se sentir bem lá dentro. Era perceptível sua mudança: quem estava perto comentava e elogiava o exterior mais bem cuidado. Ela estava ficando mais forte, andava com as costas eretas. Porém, a cabeça ainda estava baixa: sinal da sua insatisfação com a vida naquele momento.

Ela estava insatisfeita com o vazio, com a rotina, com a alma. Precisou ter o nada para saber o que queria. Precisou do vazio para saber o que gostaria que a preenchesse. Precisou do escuro para saber o que iria iluminá-la outra vez. Precisou da chama apagada para saber como voltar a brilhar. Foi uma fase difícil. Dolorosa.

Mas ela continuou caminhando, sempre foi corajosa e determinada. O tempo foi passando em uma rotina insossa, até que ela voltou a sorrir de uma maneira muito inesperada: foi quando olhou as estrelas no céu, deitada no capô de um carro, numa cidade distante. Aquele momento selou sua felicidade. Ela permitiu-se sentir outra vez. Permitiu-se viver paixões que sempre foram o alimento para sua alma. Se apaixonava todos os dias por diversas coisas diferentes. Estava se preenchendo, de forma cautelosa e seletiva. E foi um momento especial, vivo e inesquecível.

Então ela foi caminhando, livre, solta e – podia-se até dizer – que feliz. Tudo estava se organizando, sem que ela precisasse fazer muito esforço. Ela estava bem, apesar de não se sentir completa. Neste momento, ela sentia saudades de um futuro que ainda não a pertencia. Sentia falta, principalmente, de amor. Do amor que ela sempre idealizou. Ela pediu, ele chegou.

O futuro amor hoje é presente. Ela reconheceu de longe que havia chegado o momento de completude. Ela simplesmente sabia que era a pessoa certa. Hoje ela está no meio do caminho. Sabe que ainda falta bastante para alcançar o destino, mas também sabe que daqui para frente caminhará leve e em paz. O amor chegou e está em construção.

Ela acha o meio do caminho muito aflitivo. Consegue enxergar o que a espera lá no final: tudo o que sempre desejou. Isso traz uma ansiosa e apressada sensação, de nunca saber esperar. Ela nunca viu sentido em esperar algo que tem condições de ser antecipado. Nunca soube viver como se tivesse tempo. Está aprendendo, aos poucos, que tem todo o tempo do mundo.

Ela tem vontade de sair correndo de encontro para o que a espera lá no fim: uma estabilidade total. Estabilidade no amor, na carreira, na saúde, nas relações. Uma roda da vida redonda e perfeita, que a levará para o lugar que ela sempre achou que merece estar. Para ela, que sempre viveu na corda bamba, tendo que se equilibrar o tempo todo,  há pressa em alcançar algo concreto, algo verdadeiro, algo que tire de vez suas inseguranças e medos.

O meio do caminho exige uma decisão. Ainda falta muito para chegar ao destino e o caminho é longo, cansativo e com diversos obstáculos. Tem também o cansaço mental: essa não tem sido uma jornada fácil. Mas ela sabe que a única coisa que precisa é de segurança. Confiar no outro, para poder esperar com um sorriso no rosto.

Ela está agindo. Está mostrando para o mundo que está pronta para fazer o resto da caminhada. Está sendo submetida a diversos testes, o que a deixa nervosa e, por vezes, apreensiva. Mas tem tido sucesso. Tem passado em cada um destes testes. Escorrega, às vezes, nos vestígios de suas inseguranças, nos vestígios de um passado que não foi feliz, nas dúvidas sobre o merecimento de tantas coisas boas assim. Mas são só escorregões. Ela levanta. Sempre levantou.

É menina, abra seus olhos. Olhe todo o caminho que percorreu, uma última vez. Se despeça do que ficou para trás. Deixe no passado tudo o que não conseguiu ser. Escute seu coração. Olhe para frente agora. Espere o melhor e prepare-se para o pior. Continue sendo você. Continue fazendo o bem. Continue, apenas continue. Quando menos esperar, o que deseja estará acontecendo no ciclo eterno das mudáveis coisas.

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