TEUS SINAIS

Sinto como se estivesse esperando você. Não de forma dolorosa ou impaciente, como se espera na fila do banco ou na sala de espera do consultório médico. É uma espera constante e quase imperceptível, na tentativa de – pela primeira vez na vida – dar um passo de cada vez. Ao mesmo tempo que espero você, não espero nada. Nada específico. Só espero sinais. Verdes, amarelos ou vermelhos. Sinais que, como no trânsito, te levam à seguir em frente, prestar atenção ou parar completamente.

Devo dizer que não espero nada de você, só espero você. Você com aquilo que você carrega. Você do jeito que vier, do jeito que é, no estado mais bruto. É exatamente a sua autenticidade que me encanta. É como, desde o começo, não foi preciso moldes ou jogos para que pudéssemos nos aproximar ou nos entender.

Confesso que tem sido uma das coisas mais difíceis que já fiz. E também não sei o que exatamente está me levando a fazer isso. Ainda é tudo muito vago. Para os intensos de plantão, é muito difícil frear os impulsos quase naturais de seguir numa velocidade constante, como se o sinal estivesse sempre verde. Mas você tem me ensinado muito bem que “temos todo o tempo do mundo”. Aprendi que devem ser respeitados os três: o tempo, os sinais e você como um todo.  Aprendi com você que as palavras – embora para mim signifiquem muito – não podem competir com as atitudes, que são a prova concreta do que as palavras exprimem. Agirei, então.

Aprendi com você a importância de se respeitar o espaço do outro, a importância do diálogo sincero – e, às vezes, frio – para que não haja mal entendidos, a importância da liberdade em todos os sentidos e, por fim, aprendi a importância da saudade. E acho que, para uma geminiana, nada é mais importante do que aprendizados.

Você me ensinou coisas muitas além destas. Além da grandeza dos aprendizados citados, aprendi coisas miúdas também. Miudezas gentis, que volta e meia me arrancam sorrisos do rosto. Não sabemos do futuro ou dos caminhos que nos esperam – e também não importa. O que importa é o aprendizado que fica e, só por estes, tudo já valeu a pena: as voltas e as meia voltas.

Eu já não sei de muita coisa hoje. Já não tenho mais as certezas que tinha há um tempo atrás. Também já não me importo com coisas que neste mesmo tempo atrás me angustiavam e já não me pego pensando no que será do futuro. Deixei de dar ouvidos para minha intuição, já que esta passou a me confundir. Decidi me ater somente aos seus sinais, que também me confundem, mas são mais confiáveis. Talvez seja mais seguro assim.

Por detrás dos dias corridos e ocupados, em cada brecha de tempo sem compromissos, nos planos para os fins de semana, numa música tocando no rádio ou na vontade que tenho de dividir notícias boas com alguém: ali está você. Sim, você está. Em pensamento, em sentimento, em desejo. E o mais incrível de tudo isso: você está, mas nem sabe disso. Nem saberá. Você está. E está livre.

VOCÊ NO OUTRO

Tenho um hábito que adquiri há alguns anos, quando fez-se extremamente necessário pensar desta maneira: o hábito de me colocar no lugar do outro, para entender como o outro funciona. Não vivemos sozinhos, apesar de, algumas vezes,  secretamente desejar que assim fosse. Convivemos com todo o tipo de gente – de genuinamente íntimos até desconhecidos completos. Temos relações diversas: família, amigos, colegas de trabalho e, para alguns, ainda há o romance. E se colocar no lugar do outro é tão importante quando perceber o lugar em que você mesmo está.

Muitos de nós adquirimos uma rotina caótica, que nos faz sentir saudades da infância que nos foi roubada pela responsabilidade. Trabalhamos horas demais, horas a mais. Perdemos tempo, fios de cabelo – e não duvido que até neurônios – no trânsito surreal das grandes metrópoles. Passamos a maior parte do nosso dia numa sala, adquirindo e também trocando conhecimento de mundo. Muitos de nós vivemos para nossa profissão, quase que robotizados, como se tivéssemos nascido só para fazer aquilo. Por questões históricas, sociais e culturais, damos valor ao trabalho. E sabemos que, dentro da sociedade que estamos (mecanicamente) inseridos, é difícil ser diferente.

Há aqueles que, como eu, ainda conseguem fugir deste cenário cinza e cansativo para ver beleza na simplicidade que a vida nos oferece. No trânsito, aproveito para ouvir música e olhar com atenção para as cores e formas da cidade. Durante o dia, mesmo que cheio de compromissos, treino o meu olhar para captar sorrisos de desconhecidos. Procuro a beleza da inocência das crianças. Observo tudo, procurando manifestações de amor, sempre. Esteja onde estiver. E essas pequenas recompensas deixam o meu dia mais leve, já que me fazem sorrir também. Mas a maioria ainda não faz isso. É como sempre digo: a maioria apenas existe, não vive.

Dentro do nosso imenso leque de relações, temos maiores e menores compatibilidades. Dentro de todas as relações existentes, acredito que a mais frágil continua sendo o romance. Família e colegas de trabalho nós não escolhemos. Amizades e romances sim. E o romance, ao meu ver, é uma amizade com acessórios. Dá trabalho. Muito trabalho. E quem tem tempo para isso hoje em dia? Quem em sã consciência vai procurar algo que dê trabalho? Me dá arrepios só de pensar em ter que construir tudo de novo, em ter que me esforçar para conhecer o outro, em ter que passar pela fase das incompatibilidades. Mas se eu me apaixonei, aceito o cargo. Não tem como voltar atrás.

O romance alimenta. Mais cedo ou mais tarde, acabamos tendo fome dele. Quando conseguimos finalmente esquecer o trágico envolvimento anterior e abrir a mente e a alma para um amor novo, não nos preocupamos tanto em olhar o lado negativo das coisas ou ter preguiça do trabalho todo que dá ter alguém do nosso lado. Procuro não julgar, procuro esclarecer mal entendidos, procuro diálogo, procuro me transferir para o lugar do outro. Assim nada se perde. Assim se constrói o sólido. Só preciso de alguém que me acompanhe e que se permita junto comigo. Não espero que seja no mesmo ritmo que eu. Espero que seja no ritmo que for.

É raro se colocar no lugar do outro hoje em dia. Raro, pois grande parte das pessoas não se coloca nem em si mesmo. O olhar para dentro está em extinção. Há aqueles que não sabem responder quem são ou de que são feitos. Que ainda não pararam para cuidar de si, para aceitar, entender, perdoar. Todos somos únicos. E não há espaço para egoísmos. Observe. Observe tudo. Observe você. Observe o outro. Observe o mundo. E, por favor, permita-se. Isso sim é a verdadeira liberdade.