VOCÊ NO OUTRO

Tenho um hábito que adquiri há alguns anos, quando fez-se extremamente necessário pensar desta maneira: o hábito de me colocar no lugar do outro, para entender como o outro funciona. Não vivemos sozinhos, apesar de, algumas vezes,  secretamente desejar que assim fosse. Convivemos com todo o tipo de gente – de genuinamente íntimos até desconhecidos completos. Temos relações diversas: família, amigos, colegas de trabalho e, para alguns, ainda há o romance. E se colocar no lugar do outro é tão importante quando perceber o lugar em que você mesmo está.

Muitos de nós adquirimos uma rotina caótica, que nos faz sentir saudades da infância que nos foi roubada pela responsabilidade. Trabalhamos horas demais, horas a mais. Perdemos tempo, fios de cabelo – e não duvido que até neurônios – no trânsito surreal das grandes metrópoles. Passamos a maior parte do nosso dia numa sala, adquirindo e também trocando conhecimento de mundo. Muitos de nós vivemos para nossa profissão, quase que robotizados, como se tivéssemos nascido só para fazer aquilo. Por questões históricas, sociais e culturais, damos valor ao trabalho. E sabemos que, dentro da sociedade que estamos (mecanicamente) inseridos, é difícil ser diferente.

Há aqueles que, como eu, ainda conseguem fugir deste cenário cinza e cansativo para ver beleza na simplicidade que a vida nos oferece. No trânsito, aproveito para ouvir música e olhar com atenção para as cores e formas da cidade. Durante o dia, mesmo que cheio de compromissos, treino o meu olhar para captar sorrisos de desconhecidos. Procuro a beleza da inocência das crianças. Observo tudo, procurando manifestações de amor, sempre. Esteja onde estiver. E essas pequenas recompensas deixam o meu dia mais leve, já que me fazem sorrir também. Mas a maioria ainda não faz isso. É como sempre digo: a maioria apenas existe, não vive.

Dentro do nosso imenso leque de relações, temos maiores e menores compatibilidades. Dentro de todas as relações existentes, acredito que a mais frágil continua sendo o romance. Família e colegas de trabalho nós não escolhemos. Amizades e romances sim. E o romance, ao meu ver, é uma amizade com acessórios. Dá trabalho. Muito trabalho. E quem tem tempo para isso hoje em dia? Quem em sã consciência vai procurar algo que dê trabalho? Me dá arrepios só de pensar em ter que construir tudo de novo, em ter que me esforçar para conhecer o outro, em ter que passar pela fase das incompatibilidades. Mas se eu me apaixonei, aceito o cargo. Não tem como voltar atrás.

O romance alimenta. Mais cedo ou mais tarde, acabamos tendo fome dele. Quando conseguimos finalmente esquecer o trágico envolvimento anterior e abrir a mente e a alma para um amor novo, não nos preocupamos tanto em olhar o lado negativo das coisas ou ter preguiça do trabalho todo que dá ter alguém do nosso lado. Procuro não julgar, procuro esclarecer mal entendidos, procuro diálogo, procuro me transferir para o lugar do outro. Assim nada se perde. Assim se constrói o sólido. Só preciso de alguém que me acompanhe e que se permita junto comigo. Não espero que seja no mesmo ritmo que eu. Espero que seja no ritmo que for.

É raro se colocar no lugar do outro hoje em dia. Raro, pois grande parte das pessoas não se coloca nem em si mesmo. O olhar para dentro está em extinção. Há aqueles que não sabem responder quem são ou de que são feitos. Que ainda não pararam para cuidar de si, para aceitar, entender, perdoar. Todos somos únicos. E não há espaço para egoísmos. Observe. Observe tudo. Observe você. Observe o outro. Observe o mundo. E, por favor, permita-se. Isso sim é a verdadeira liberdade.

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