A estrada

Hei de confessar: há dias que tenho preguiça de enfrentar a rotina. O ânimo deixa de existir e a vida entra em piloto automático. Levanto por levantar, dirijo por dirigir, trabalho por trabalhar, assisto aulas sem mente presente. Tem dias que são assim, mornos. Dias cheio de compromissos, mas absolutamente vazios de sentido.

Não tenho do que reclamar. Tenho tudo estável. Tenho um trabalho, tenho uma faculdade, tenho um amor, tenho família, tenho alguns bons amigos. Tudo certo. Mas falta brilho. Na verdade, acho que o que falta é paixão.
Mais uma confissão: eu me alimento de paixão. Não estou falando somente da paixão romântica, estou falando da paixão pela vida. Quando falta, tenho um problema. Entro em colapso.

Quando isso acontece, sinto como se estivesse caminhando por uma estrada longa e deserta. Uma estrada de terra batida, na qual eu caminho tentando suportar a temperatura abafada. Há incômodo. Nesta estrada, nada muda: a paisagem é a mesma. É monótono. Nessa estrada, eu caminho sozinha. Sempre sozinha. Fico esperando encontrar alguma coisa diferente, que me traga ânimo e algumas risadas. Mas, fitando o horizonte, percebo que ainda não vem nada de novo. E eu me desespero.

Eu preciso de mudanças, como uma boa geminiana. Nada que caia na rotina me deixa feliz. Preciso do novo sempre presente. Não sirvo para piloto automático. Não sirvo para agir apenas pela obrigação de agir. Preciso de cor, de movimento, de sorrisos. E, se pensarmos na estrada, preciso de uma bifurcação, para poder mudar de lugar.

Quando encontro a bifurcação, mudo de caminho. Ainda é a mesma estrada de terra batida, mas o sentido é outro. Tenho o vento batendo no rosto e afastando o calor do corpo. Olho em volta e percebo uma variedade de árvores e flores. Me apaixono por ipê amarelo. Ando de mãos dadas em alguns momentos, já que não gosto de estar sozinha. E me apaixono por aquelas mãos.

Encontro uma casa no meio da estrada, que abriga pessoas simpáticas e divertidas. Sou convidada a entrar. Me apaixono pelos novos amigos. Eles me servem uma comida deliciosa enquanto ouvimos boa música. E eu me apaixono pelo ambiente. Sigo em frente e carrego saudade. E me apaixono por mim mesma.

Comecei a escrever este texto caminhando pela estrada monótona, mas termino o texto em frente à bifurcação. E quem quiser me dar a mão, venha.

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