BATATAS FRITAS

E eu resolvi almoçar no L’ entrecôte de Paris, sozinha. Não costumo ir a restaurantes sozinha. Não porque não goste, mas porque quando como sozinha é sempre algo rápido e prático. Mas eu estava com tempo. E hoje, ao invés de pegar uma bandeja de outro bom restaurante qualquer da praça de alimentação (e tinham ótimas opções), eu queria me mimar um pouco mais. Sentar num ambiente mais aconchegante, mais reservado. Ficar comigo.

Preciso dizer que quando almoço sozinha as pessoas me olham de um jeito estranho. Nunca entendi o porque. A garçonete, apesar de simpática, lançou-me este olhar. Só por isso, reparei que era a única, no restaurante cheio, que estava almoçando sozinha. Nem liguei. Me achei o máximo, na verdade.

Aceitei o couvert. Me arrependi logo depois, pois se tratava de um pão com manteiga. Mas comi. Jamais negaria qualquer coisa com manteiga. Depois, veio uma salada de folhas verdes, com nozes e tomate cereja. Um molho bem gostoso junto. E, o astro do restaurante, o prato principal, chegou logo depois. O ponto exato da carne – mal passada, como havia pedido. Um molho absurdamente bom borbulhando por cima. E tipo, toneladas de batata frita.

Até ai, um almoço gostoso. Em minha companhia. Só que aconteceu algo mágico quando eu comi as batatas fritas: meus olhos encheram de lágrimas.
Vocês podem perguntar: “MAS PORQUE VOCÊ CHOROU COMENDO BATATAS FRITAS?” Eu explico.

Não foi porque eu estava sozinha, nem porque as batatas estavam muito quentes. Foi porque eu estava comigo mesma. Estava em contato com toda a minha sensibilidade. E no exato momento que mastiguei as batatas, lembrei da minha mãe. Aquelas batatas fritas me levaram direto para casa.

Fui transportada para a sala da casa da minha mãe, que, muito cuidadosa e carinhosa, sempre prepara um bife com batatas fritas que eu adoro. Ela coloca numa bandeja e escreve eu “eu te amo” no guardanapo. E aquelas batatas fritas eram exatamente iguais a da minha mãe. Mais delicioso que o prato, foi a memória afetiva que ele me provocou. E é uma delícia quando isso acontece.

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A VISITA

Eu nasci antes da hora, né? Nasci de 36 semanas, quase 37. Então, digo com propriedade: desde sempre fui ansiosa. Como pode um serzinho que ainda nem nasceu já querer sair atropelando o tempo? Pois é. Nasci com esse peso para carregar. E carreguei não só o peso, como as consequências dele. Dariam toneladas, se eu juntasse tudo o que já carreguei. Mas também não vou me fazer de vítima.

Vou ser sincera: nunca soube esperar. Esperar sempre me trouxe angústia. Sempre tive aquele impulso imediatista, que, como um diabinho, ficava na minha orelha me mandando agir antes da hora. Diabinho mesmo, dos mal intencionados. Eu ouvia a voz. E era incontrolável: quando eu me dava conta, a merda já estava feita.

E eu sempre soube que estava fazendo merda. Merda das grandes, tá? Nunca fui de errar sem saber que estava errando. Pelo menos isso! A culpa que vinha junto dos saquinhos de merda era das grandes também, acho que era por isso que doía. Nem um segundo depois de ter feito a besteira, eu já estava arrependida. Pensava: “Puta que o pariu, Ana Beatriz! De novo? Como você é burra! Não aprende nunca!”.

E cá estou eu, 26 anos depois. Achei que já tinha aprendido. Tinha tempo que não ouvia a voz do diabinho. Achei que eu estava livre dele. Mas não. Ele só estava escondido. Ele é um diabinho sim, mas não é necessariamente ruim. No fim, ele só quer que eu aprenda. Ele é meio folgado, vive enganando a gente… Deixa a gente viver bem e feliz por um tempão e aparece do nada, sem avisar. Êta diabinho que gosta de testes!

E se eu te contar que o diabinho tá aqui sentado comigo no sofá? Juro! Onde eu vou ele vai atrás, acho até engraçado! O dito cujo apareceu na minha casa ontem. No domingo! Não disse que ele era folgado? Ele disse que apareceu porque recebeu um recado meu. Eu andava mesmo fazendo muitas orações sobre este assunto. Alguém ouviu! Fui atendida! (Não da maneira que esperava, mas fui.).

Ele entrou na minha casa e me disse apenas uma coisa:

– “Eu só vou sair daqui quando você descobrir o que deve fazer para me mandar embora. E se você descobrir, eu nunca mais volto. Você ficará livre deste peso. Você, Bia, vai finalmente aprender a lição. Mas você só tem uma chance. Uma só”.

Precisei que algo muito sério acontecesse. Precisei perder. Precisei de um tapa na cara, de uma sacolejada do mundo, de uma dor aguda. Mas foi assim que eu resolvi enfrentar o diabinho. Agora ele está aqui, com um ar de misterioso. Ele também está meio entediado de ter que me acompanhar o tempo todo. E ele acabou virando uma charada. A única coisa que eu penso agora é em como vou fazer para mandar ele embora.

Logo, logo, eu descubro. Já até consigo ignorar quando ele vem me provocar. E quando eu descobrir, posso até vir contar para vocês como foi. Mas acho que não vai fazer muito sentido. Cada um tem o seu diabinho. Cada um tem seus maiores medos, cada um sabe o que tem que aprender para ser melhor do que é, para evoluir, para cuidar de si.

Mas uma coisa é certa: na hora que você se abrir para o aprendizado, o diabinho também vai te visitar. Abra a porta, deixa ele entrar. Enfrenta. Ele não dá medo. Na verdade, ele te enche de coragem.