Silêncio.

Era tarde
Tarde da noite
Onde da janela se via a lua
E se ouvia o silêncio.

Havia silêncio na noite
Mas barulho na alma
Inquieta, ela rodava
Entre memórias e angústias já vividas.

E ela não sabia se era ela
Ou se era a mente vagando
Se era ela
Ou a intuição gritando

Mas, naquele momento
Já não importava o que fosse
Era dela
E era sofrido

E ela se entregou
Não ao sofrimento
Mas à vida
Aos acasos

Se fosse para sofrer
Que fosse
Se fosse para viver
Que fosse agora

Que se viva o que vier
O que houver
O que seja
Que seja

Ela cansou
Se rendeu
Ao vivo
Ou ao morto

Que seja.

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A estrada

Hei de confessar: há dias que tenho preguiça de enfrentar a rotina. O ânimo deixa de existir e a vida entra em piloto automático. Levanto por levantar, dirijo por dirigir, trabalho por trabalhar, assisto aulas sem mente presente. Tem dias que são assim, mornos. Dias cheio de compromissos, mas absolutamente vazios de sentido.

Não tenho do que reclamar. Tenho tudo estável. Tenho um trabalho, tenho uma faculdade, tenho um amor, tenho família, tenho alguns bons amigos. Tudo certo. Mas falta brilho. Na verdade, acho que o que falta é paixão.
Mais uma confissão: eu me alimento de paixão. Não estou falando somente da paixão romântica, estou falando da paixão pela vida. Quando falta, tenho um problema. Entro em colapso.

Quando isso acontece, sinto como se estivesse caminhando por uma estrada longa e deserta. Uma estrada de terra batida, na qual eu caminho tentando suportar a temperatura abafada. Há incômodo. Nesta estrada, nada muda: a paisagem é a mesma. É monótono. Nessa estrada, eu caminho sozinha. Sempre sozinha. Fico esperando encontrar alguma coisa diferente, que me traga ânimo e algumas risadas. Mas, fitando o horizonte, percebo que ainda não vem nada de novo. E eu me desespero.

Eu preciso de mudanças, como uma boa geminiana. Nada que caia na rotina me deixa feliz. Preciso do novo sempre presente. Não sirvo para piloto automático. Não sirvo para agir apenas pela obrigação de agir. Preciso de cor, de movimento, de sorrisos. E, se pensarmos na estrada, preciso de uma bifurcação, para poder mudar de lugar.

Quando encontro a bifurcação, mudo de caminho. Ainda é a mesma estrada de terra batida, mas o sentido é outro. Tenho o vento batendo no rosto e afastando o calor do corpo. Olho em volta e percebo uma variedade de árvores e flores. Me apaixono por ipê amarelo. Ando de mãos dadas em alguns momentos, já que não gosto de estar sozinha. E me apaixono por aquelas mãos.

Encontro uma casa no meio da estrada, que abriga pessoas simpáticas e divertidas. Sou convidada a entrar. Me apaixono pelos novos amigos. Eles me servem uma comida deliciosa enquanto ouvimos boa música. E eu me apaixono pelo ambiente. Sigo em frente e carrego saudade. E me apaixono por mim mesma.

Comecei a escrever este texto caminhando pela estrada monótona, mas termino o texto em frente à bifurcação. E quem quiser me dar a mão, venha.

É que eu preciso dizer que te amo

O nosso eu te amo não foi um clichê. E continua não sendo. Nunca foi dito da boca para fora, nunca foi escrito em post-its, nunca veio logo depois do boa noite no whatsapp. Deve ser porque este amor seja único, diferente de todos os que já tive. Único? Sim, único. O nosso eu te amo não é falado. Já descobrimos que palavras não valem nada se não vierem acompanhadas de atitudes. Nosso amor está nos detalhes, no dia-a-dia. Nosso eu te amo é palpável.

Você diz que ama toda vez que acorda do meu lado, me dá um beijo de bom dia e fica um tempão enrolando debaixo das cobertas. Também diz que me ama quando pede desculpas por abrir a janela ou acender a luz, já que sabe que eu não sou muito fã de claridade quando estou despertando.

Você diz que me ama quando eu me arrumo logo depois de sair do banho e, depois de me olhar por algum tempo e me fazer algum elogio, você pergunta “É seu aniversário?” – e eu, envergonhada, respondo baixinho que não (ou que sim, depende do humor) – para logo depois ouvir você dizer “Você tá de parabéns!”.

Você diz que me ama todas as vezes que chegamos em casa e você finge que perdeu a chave, só para tentar me assustar. Ou qualquer outra vez que você tenta mentir, mas não consegue, rendendo ótimas risadas e bons filmes gravados no celular.

Você diz que me ama toda vez que pede para eu escolher o filme, escolher o canal, escolher o bar, escolher o restaurante, escolher a mesa, escolher o prato, escolher… Mesmo sabendo que a minha resposta é sempre “tanto faz”.

Você diz que me ama toda vez que divide a sua vida comigo, toda vez que me leva para os encontros de família, toda vez que me coloca nos seus planos futuros, toda vez que me pede opinião sobre alguma coisa, toda vez que me conta do seu passado, da sua infância, da sua adolescência, do seu trabalho, do seu mundo.

Você diz que me ama sempre que cuida de mim quando estou doente, sempre que me faz fazer inalação quando estou gripada, sempre que passa pomada nos roxos que faço sendo distraída por aí, sempre que faz massagem quando tenho dor nas costas e sempre que prepara uma bolsa de água quente quando tenho cólicas. Também diz que me ama quando, em todos estes casos, me oferece um remédio – mas segundos depois lembra que eu sou alérgica e procura outra alternativa.

Você diz que me ama todas as vezes que dirige meu carro, pois sabe que eu detesto dirigir. Também diz que me ama toda vez que vai comigo ao posto de gasolina e me ensina a trocar o óleo, trocar o filtro de ar ou arrumar qualquer coisa que seja no meu carro, pois sabe que eu não faço a menor ideia de como fazer essas coisas.

Você diz que me ama toda vez que me dá um presente. Não pelo material em si, mas em como você tem a sensibilidade de observar tudo o que eu gosto e traduzir em um objeto. Você também diz que me ama – e muito – quando faz surpresas no dia do meu aniversário e me faz sentir a mulher mais incrível do mundo.

Você diz que me ama toda vez que aguenta a minha terrível TPM, toda vez que passa o domingo inteiro de preguiça em casa comigo, toda vez que reclama que eu não estou dormindo perto o suficiente, toda vez que fica com ciúmes por eu gostar de dormir abraçada no travesseiro (e não em você) e toda vez que passa de fase para mim no candy crush.

Você diz que me ama toda vez que dançamos juntas, em público ou sozinhas, com ou sem música. Você diz que me ama toda vez que lembra de mim ouvindo Bruno Mars. Você diz que me ama toda vez que me chama de Amy Winehouse quando bebo demais ou quando me dá apelidos baseados nos nossos seriados favoritos.

Você também diz que me ama quando não assiste “Game of Thrones” sem que eu esteja junto, já que isso seria a pior das traições. Falando nisso, você diz que me ama no quão honesta é, no quão fiel é e na importância que dá para a nossa relação.

Você diz que me ama todas as vezes que me olha nos olhos, todas as vezes que me abraça e toda vez que se refere a mim como “minha mulher”. Você diz que me ama toda vez que me deixa cuidar das suas filhas, me dando a alegria de ser madrasta de um cachorro e um gato.

Você diz eu te amo na nossa convivência, no quanto é bom estar ao seu lado mesmo quando não estamos fazendo nada. Você diz eu te amo o tempo todo. Até quando brigamos bêbadas, passamos vergonha, mas caímos na gargalhada depois.

Hoje eu preciso dizer que te amo. Mas, mais uma vez, escolhi não dizer de forma clichê. Obrigada por cada “eu te amo” desses e por deixar meu coração quentinho todos os dias.

BILHETE #02

Você era amor futuro, lembra?

Era um amor que eu já conhecia,

era amor que estava para acontecer,

era uma saudade e um anseio,

era futuro certo, mas sem previsão de chegada.

 

Chegou.

Chegou devagar, mas transbordando

Chegou manso, mas forte

Quieto, mas ecoando

Chegou puro e sincero.

 

Hoje não é mais amor futuro

É amor presente

Presente de diversas formas

Presente divino

Presente no tempo

Presente no espaço

Presente em mim

Em você

Em nós.

 

 

 

 

BILHETE #01

Só queria agradecer.

O livro,

o presente,

o domingo,

o meu nome no carimbo.

Agradecer você

pela sinceridade,

pela sintonia,

por ser o oposto de mim,

por se adaptar também.

Agradeço até as provocações que fazes para me ver brava

e o jeito mandão que me pede para engolir o choro.

Tudo bem, eu até gosto

sempre acaba em riso e bom humor.

Tudo isso é motivo de gratidão.

Você é motivo de gratidão.

Obrigada, então

pela sorte desta tranquilidade.

Obrigada, então

por ter me encontrado,

por ter me escolhido,

por não ter pressa

e não deixar que eu tenha também.

TEUS SINAIS

Sinto como se estivesse esperando você. Não de forma dolorosa ou impaciente, como se espera na fila do banco ou na sala de espera do consultório médico. É uma espera constante e quase imperceptível, na tentativa de – pela primeira vez na vida – dar um passo de cada vez. Ao mesmo tempo que espero você, não espero nada. Nada específico. Só espero sinais. Verdes, amarelos ou vermelhos. Sinais que, como no trânsito, te levam à seguir em frente, prestar atenção ou parar completamente.

Devo dizer que não espero nada de você, só espero você. Você com aquilo que você carrega. Você do jeito que vier, do jeito que é, no estado mais bruto. É exatamente a sua autenticidade que me encanta. É como, desde o começo, não foi preciso moldes ou jogos para que pudéssemos nos aproximar ou nos entender.

Confesso que tem sido uma das coisas mais difíceis que já fiz. E também não sei o que exatamente está me levando a fazer isso. Ainda é tudo muito vago. Para os intensos de plantão, é muito difícil frear os impulsos quase naturais de seguir numa velocidade constante, como se o sinal estivesse sempre verde. Mas você tem me ensinado muito bem que “temos todo o tempo do mundo”. Aprendi que devem ser respeitados os três: o tempo, os sinais e você como um todo.  Aprendi com você que as palavras – embora para mim signifiquem muito – não podem competir com as atitudes, que são a prova concreta do que as palavras exprimem. Agirei, então.

Aprendi com você a importância de se respeitar o espaço do outro, a importância do diálogo sincero – e, às vezes, frio – para que não haja mal entendidos, a importância da liberdade em todos os sentidos e, por fim, aprendi a importância da saudade. E acho que, para uma geminiana, nada é mais importante do que aprendizados.

Você me ensinou coisas muitas além destas. Além da grandeza dos aprendizados citados, aprendi coisas miúdas também. Miudezas gentis, que volta e meia me arrancam sorrisos do rosto. Não sabemos do futuro ou dos caminhos que nos esperam – e também não importa. O que importa é o aprendizado que fica e, só por estes, tudo já valeu a pena: as voltas e as meia voltas.

Eu já não sei de muita coisa hoje. Já não tenho mais as certezas que tinha há um tempo atrás. Também já não me importo com coisas que neste mesmo tempo atrás me angustiavam e já não me pego pensando no que será do futuro. Deixei de dar ouvidos para minha intuição, já que esta passou a me confundir. Decidi me ater somente aos seus sinais, que também me confundem, mas são mais confiáveis. Talvez seja mais seguro assim.

Por detrás dos dias corridos e ocupados, em cada brecha de tempo sem compromissos, nos planos para os fins de semana, numa música tocando no rádio ou na vontade que tenho de dividir notícias boas com alguém: ali está você. Sim, você está. Em pensamento, em sentimento, em desejo. E o mais incrível de tudo isso: você está, mas nem sabe disso. Nem saberá. Você está. E está livre.

VOCÊ NO OUTRO

Tenho um hábito que adquiri há alguns anos, quando fez-se extremamente necessário pensar desta maneira: o hábito de me colocar no lugar do outro, para entender como o outro funciona. Não vivemos sozinhos, apesar de, algumas vezes,  secretamente desejar que assim fosse. Convivemos com todo o tipo de gente – de genuinamente íntimos até desconhecidos completos. Temos relações diversas: família, amigos, colegas de trabalho e, para alguns, ainda há o romance. E se colocar no lugar do outro é tão importante quando perceber o lugar em que você mesmo está.

Muitos de nós adquirimos uma rotina caótica, que nos faz sentir saudades da infância que nos foi roubada pela responsabilidade. Trabalhamos horas demais, horas a mais. Perdemos tempo, fios de cabelo – e não duvido que até neurônios – no trânsito surreal das grandes metrópoles. Passamos a maior parte do nosso dia numa sala, adquirindo e também trocando conhecimento de mundo. Muitos de nós vivemos para nossa profissão, quase que robotizados, como se tivéssemos nascido só para fazer aquilo. Por questões históricas, sociais e culturais, damos valor ao trabalho. E sabemos que, dentro da sociedade que estamos (mecanicamente) inseridos, é difícil ser diferente.

Há aqueles que, como eu, ainda conseguem fugir deste cenário cinza e cansativo para ver beleza na simplicidade que a vida nos oferece. No trânsito, aproveito para ouvir música e olhar com atenção para as cores e formas da cidade. Durante o dia, mesmo que cheio de compromissos, treino o meu olhar para captar sorrisos de desconhecidos. Procuro a beleza da inocência das crianças. Observo tudo, procurando manifestações de amor, sempre. Esteja onde estiver. E essas pequenas recompensas deixam o meu dia mais leve, já que me fazem sorrir também. Mas a maioria ainda não faz isso. É como sempre digo: a maioria apenas existe, não vive.

Dentro do nosso imenso leque de relações, temos maiores e menores compatibilidades. Dentro de todas as relações existentes, acredito que a mais frágil continua sendo o romance. Família e colegas de trabalho nós não escolhemos. Amizades e romances sim. E o romance, ao meu ver, é uma amizade com acessórios. Dá trabalho. Muito trabalho. E quem tem tempo para isso hoje em dia? Quem em sã consciência vai procurar algo que dê trabalho? Me dá arrepios só de pensar em ter que construir tudo de novo, em ter que me esforçar para conhecer o outro, em ter que passar pela fase das incompatibilidades. Mas se eu me apaixonei, aceito o cargo. Não tem como voltar atrás.

O romance alimenta. Mais cedo ou mais tarde, acabamos tendo fome dele. Quando conseguimos finalmente esquecer o trágico envolvimento anterior e abrir a mente e a alma para um amor novo, não nos preocupamos tanto em olhar o lado negativo das coisas ou ter preguiça do trabalho todo que dá ter alguém do nosso lado. Procuro não julgar, procuro esclarecer mal entendidos, procuro diálogo, procuro me transferir para o lugar do outro. Assim nada se perde. Assim se constrói o sólido. Só preciso de alguém que me acompanhe e que se permita junto comigo. Não espero que seja no mesmo ritmo que eu. Espero que seja no ritmo que for.

É raro se colocar no lugar do outro hoje em dia. Raro, pois grande parte das pessoas não se coloca nem em si mesmo. O olhar para dentro está em extinção. Há aqueles que não sabem responder quem são ou de que são feitos. Que ainda não pararam para cuidar de si, para aceitar, entender, perdoar. Todos somos únicos. E não há espaço para egoísmos. Observe. Observe tudo. Observe você. Observe o outro. Observe o mundo. E, por favor, permita-se. Isso sim é a verdadeira liberdade.