SIMPLES ASSIM

Você sabe que o amor está em tudo, né? Se não sabe, preste atenção. Está em pequenos detalhes do cotidiano. Tão essencial quanto respirar é saber perceber e possuir olhar clínico para os detalhes acolhedores do dia a dia.

É prestar atenção no caminho que você faz todo dia e  reparar que, ali, logo na esquina do local de destino, existe uma árvore absolutamente esplêndida. É, em meio à buzinas e trânsito caótico, ver que o céu está azul e reparar no formato das nuvens.

É sorrir ao ver uma criança se melecando com um sorvete, ao ver um casal de idosos passeando de mãos dadas, ao ver seus melhores amigos dando risada, ao ver seu cachorro dormindo no sofá.

São tantas coisas simples capazes de arrancar sorrisos e tantas coisas doces presentes no que você insiste em degustar amargo… É bom enxergar o mundo em slow motion e full HD. Minucioso e colorido. Chega de preto e branco, chega de velocidade rotineira. Esse mundo precisa de brilho, de gentileza de gestos simples – e principalmente humildes – de sabedoria de espírito.

Veja bem, eu não estou pedindo para vivermos em um mundo cor de rosa e continuamente feliz. Seria muito chato. Nunca quis viver o “politicamente correto”, pois nem acredito que “política” e “correto” sejam palavras que se complementam. Só acho que o otimismo deveria estar presente esporadicamente.

Todo mundo merece passar um dia em paz. Todo mundo merece fazer a diferença. Todo mundo merece viver, ultrapassando a obrigatoriedade de existir. Todo mundo merece sentir, pelo menos algumas vezes, que realmente faz parte deste mundo. Que não é só mais um número, só mais um nome, só mais um registro no IBGE.

As melhores coisas da vida estão na simplicidade. Na comida da avó, na manteiga derretendo no pão quentinho, no copo de Coca-Cola com gelo no verão, no pão de alho assando na churrasqueira, na pergunta curiosa – e, por vezes, hilária – de uma criança, no aconchego do peito no abraço de quem te ama, no beijo na testa, no sorriso espontâneo, nas fotos tiradas, nos pés descalços, no pôr do sol, na música, na dança, na arte, na escrita, na fala, no sussurro, no abraço, no silêncio, no vazio, na lua e nas estrelas.

A lista é grande. E, sim, as melhores coisas da vida estão em infinitas e incontáveis surpresas vindas da simplicidade. É só aguçar o paladar da existência. É só temperar a vida, à gosto. É só saber receber, permitir, ser. É só parar de complicar. Simples assim.

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E SE?

E um dia desses, antes de dormir, fiquei pensando nos “e se” da minha vida. E se eu tivesse terminado a faculdade de direito? E se eu tivesse insistido em mais um ano de cursinho para entrar em medicina? E se eu tivesse entrado em medicina? E se eu não tivesse terminado aquele namoro? E se eu tivesse aceitado aquele convite? E se eu tivesse ido naquela balada? E se eu tivesse ido viajar? E se eu não saísse da casa dos meus pais? E se eu não tivesse parado de trabalhar? E se eu não tivesse engolido tantos sapos? E se eu tivesse feito outras escolhas? E se? E se? E se? Em que lugar eu estaria agora?

Foi depois de ler uma crônica gracinha do ilustre Luís Fernando Veríssimo que comecei a pensar nisso. Nos primeiros minutos de reflexão, quase fiquei maluca. Me dei conta de quantas escolhas importantes já fiz na vida. E também me dei conta de que poderia ser uma pessoa completamente diferente da que sou hoje, se tivesse vivido de outra maneira. Fiquei chocada quando me dei conta de quantas vezes fiquei frente à bifurcações, quantas vezes tive que escolher um caminho e abandonar outro, quantas vezes tive que decidir, rapidamente, o que iria fazer da minha vida naquele determinado momento.

Queria, como Verissimo fez, encontrar todos os meus “eus” para tomar uma cerveja em um bar qualquer. Queria encontrar a Bia médica e saber como estavam indo as coisas. A Bia advogada, para perguntar se ela estava trabalhando demais. A Bia casada, para saber se ela estava se sentindo amada. A Bia mãe, para perguntar se um filho é mesmo a melhor coisa do mundo. A Bia viajada, para saber todas as histórias dela pelo mundo afora. A Bia hippie, para saber mais sobre a vida como ela é. A Bia cult, para entender mais sobre assuntos densos. A Bia patricinha, para saber o que anda na moda…  É. Eu queria mesmo encontrar as Bias correspondentes à cada escolha, cada caminho. Procurei fazer este encontro mentalmente. Foi uma mistura de sentimentos. Foi engraçado e um pouco angustiante. Mas foi uma boa viagem. Um bom encontro. Levei dias me divertindo com cada rumo que minha vida poderia ter tomado.

E, quer saber? Deste encontro, levo a certeza de que viver presa ao passado não é viver, nem ao menos existir. É só um recordar. Levo a certeza de que as escolhas que fiz não poderiam ter sido melhores, já que os aprendizados que tive com elas foram essenciais para que eu me tornasse a mulher que sou hoje. Levo a certeza de que nada é por acaso: olhando para trás, as coisas se encaixam como um quebra cabeças. E mais: desta reflexão toda sobre minhas infinitas possibilidades, levo a certeza de que ainda ficarei frente à muitas outras opções de vida. E que sempre serão as melhores, mesmo que sofridas, mesmo que difíceis, serão sempre as melhores. Eu estou exatamente onde deveria estar.