CANTEIROS

Saí de casa às 7:45. Não costumo sair tão cedo, mas teve que ser assim. E já que o dia começou diferente, resolvi fazer tudo diferente.

Não liguei o rádio do carro. Não quis. Dependendo da música que tocasse, eu ia ficar emotiva. Me conheço. Preferi evitar.

Peguei a Vinte e Três. Parada, claro. Tem coisas que não mudam. Mas resolvi ficar na pista da esquerda, coisa que nunca faço, já que me irrito com os motoqueiros que não deixam você mudar de pista quando precisa.

Quando estava parada na altura do Aeroporto de Congonhas, comecei a olhar o que acontecia em minha volta. Acho que estava cansada de tanto olhar para dentro e decidi olhar para fora, só para variar um pouco e, com sorte, me distrair. Então fiquei olhando pela janela. A minha janela mesmo, do motorista, do lado esquerdo.

Vi pessoas caminhando apressadas do outro lado da rua, vi ônibus lotados e seus passageiros diversos. Pensei: “O que será que estas pessoas estão pensando agora?”. Percebi o quanto sou pequena diante deste mundo. E também pensei que aquelas pessoas poderiam ter problemas muito piores que os meus. Isso não me aliviou, só me tirou o egoísmo.

Depois, reparei em um canteiro de lírios brancos. Nunca tinha reparado que tinha um canteiro de lírios brancos bem no meio da Vinte e Três. Alguns estavam mortos, outros apenas murchos. Mas nenhum estava bonito de verdade, como a gente vê na floricultura. Então eu pensei que podia ser por causa da falta de chuva, ou por causa de todo o lixo que havia em volta do canteiro, ou pela falta de cuidado com as flores, ou porque ali não era um bom lugar para lírios brancos crescerem.

Ufa, o carro andou mais um pouco. Pouco, eu disse. Passou pela minha cabeça o quanto São Paulo é chato por causa do trânsito. Mas, se eu continuasse com esse pensamento, iria enlouquecer. Uma vez, eu surtei dentro do carro por causa disso. Fiquei com tanta vergonha que prometi que não ia mais deixar que o trânsito de São Paulo me irritasse tanto. Se eu deixasse, ia ficar descontrolada todo dia!

Então reparei no Memorial que existe ali do lado do Aeroporto de Congonhas, onde houve aquele acidente horroroso de avião, lembram? A primeira coisa que pensei foi “Que Memorial horroroso, gente. Podiam ter construído algo mais bonito e significativo”. É tudo cinza, mórbido, feio. Podiam tem construído um parque. Podiam ter colocado o canteiro de lírios brancos lá. Ficaria bem melhor.

O trânsito andou de novo. Desta vez, andou bastante. Fui reparando nos canteiros. Sei lá, fiquei encucada com os benditos canteiros. Mas durante o caminho, não havia nenhum, só uma estrutura de metal que servia para separar as pistas. Não gostei daquilo. Também achei feio.

Então comecei a olhar as placas. Sempre fui geograficamente imbecil. Tipo, muito perdida mesmo, sem o menor senso de localização das coisas. Eu sei o caminho. Faço todo dia. Mas resolvi reparar nas placas para eu saber pelo menos o nome do caminho que eu to fazendo. Vai que um dia preciso explicar para alguém, né? Vi a placa que indicava a entrada para o Bairro de Moema. Pensei em coisas boas. Tive saudade. Sorri.

Logo mais a frente, o trânsito parou de novo. E tinha um canteiro! As folhas eram verdes e bem fortes. Pequenas também. E, dos galhos, brotava uma florzinha lilás, muito pequena e delicada. Fiquei olhando florzinha por florzinha e percebi que nenhuma estava inteira. Faltavam pétalas. Então eu pensei, de novo, que ali não era lugar de ter uma flor tão delicada. Os carros passando do lado acabam levando pedaços das coitadas das flores. E, por um momento, fiquei possessa com o responsável por colocar aquele canteiro ali. Será que a pessoa não pensou nisso, gente? Põe, sei lá, uma espada de São Jorge. É forte, não vai se despedaçar toda. Taí, espadas de São Jorge no meio da Vinte e Três.

“FILHA DA PUTA! SAI DA FRENTE CARALHO! DÁ ESPAÇO!”. Era um motoqueiro me xingando. Tá vendo? Por isso que eu não gosto de ficar na pista da esquerda. Me subiu o sangue e eu pensei em xingar de volta. Mas não. Fiz o sangue descer imediatamente. Não vou deixar que um motoqueiro mau educado acabe com o meu dia, ou com a minha paciência, ou com o meu repentino interesse por botânica.

Mudei de pista. Ali na entrada para a Avenida Brasil, reparei em outro canteiro. Também era de lírios. Mas eram lírios brancos e lírios roxos. Um roxo diferente, forte. Os lírios brancos estavam, de novo, murchos ou mortos. Mas os mais escuros estavam bonitos e firmes. Achei aquilo muito esquisito. Se alguém entender alguma coisa de botânica, podia me explicar isso um dia numa mesa de bar.

Depois de entrar na Avenida Brasil, resolvi rezar. Agradecer muito e pedir algumas coisas. Sempre detestei a Avenida Brasil. Mas não tem jeito, preciso passar por ela quase todos os dias. E não é que a vida é igualzinha a Avenida Brasil? Tem coisas que a gente detesta, mas tem que passar por elas, detestando ou não. Então passei rezando, por mim e pelos que amo.

Enfim, passei uma hora e dez minutos dentro do carro. Fiz tudo diferente. Não acho que minha vida tenha mudado por causa dos canteiros, ou por achar soluções para o Memorial ser mais bonito, ou por ter rezado o restante do caminho. Mas acho que minha vida mudou um pouco quando eu consegui olhar as coisas de outro ângulo.

Amanhã, quando estiver na Vinte e Três, vou olhar da janela do passageiro, do lado direito. Só por curiosidade. Vai que é legal assim que nem hoje, né?

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