KOY NO YOKAN

Em japonês, a expressão do título significa “premonição de amor”. Aquela sensação, após conhecer alguém, de que você irá se apaixonar por aquela pessoa. Você sabe do que eu estou falando, não sabe? Mas se não souber, saberá.

É uma certeza. Quase que uma visão do que o futuro reserva. Como num flash, enxergamos mãos dadas, sorrisos soltos, companheirismo. Em uma fração de segundo, sentimos todo o amor que nos espera, sentimos o coração quentinho, um bem estar completo e suficiente.

É uma sensação rápida, mas suficientemente concreta. Acontece quando você menos espera. Inunda a alma, inunda pensamentos, inunda o corpo. Transcende. Transborda. Transfere.

Você sabe o que vai sentir, o que vai viver e o que vai acontecer entre você e a pessoa responsável por tal façanha. Não sabe como – nem quando – mas sabe com quem. Pode ser forte ao ponto de você saber que encontrou o amor da sua vida. E, garanto, quando acontece, não tem como se enganar. Basta aceitar e ser você mesmo. A sinceridade é ideal daí para frente.

Não é uma questão de escolha. O apaixonar-se é um apoderar-se de sensações que fogem do seu controle. O apaixonar-se é mágico, já que não pode ser explicado de maneira racional. É um enigma, uma ligação misteriosa entre duas pessoas que, quando forte, impressiona pela intensidade e foge de qualquer explicação. Por vezes, vem acompanhado de súbitas coincidências, que chegam a ser assustadoras – no lado bom, claro.

É sentimento puro, mas que entrega a você a escolha de vive-lo ou fugir da raia. Eu, na intensidade tão conhecida por todos, vivo. Penso que fugir desta sensação é uma tortura anunciada: sofrimento na certa. Gosto de ser invadida, de perder o controle dos meus pensamentos, de mudar os hábitos alimentares, de sacudir a rotina, de dormir menos para viver mais.

Saber que vai se apaixonar por alguém é algo como um pedacinho de paz. Este saber intuitivo e devastador funciona como uma aquietação daquilo que grita dentro da gente. Soa como uma nova chance depois de amores imperfeitos, como esperança de recomeço, como um sopro de vida depois da morte de casos passados.

Anúncios

PALAVRAS AO VENTO

Sempre dei muita importância para as palavras. Palavras escritas, palavras faladas, palavras cantadas. Talvez, para mim, palavras sejam fonte de segurança. Estão ali, registradas, intactas, prontas para serem lidas quando eu bem entender. Nunca soube como agir quando as palavras faltam, quando o silêncio reina, quando a folha está em branco. Ficava perdida, sem respostas, sem saber o que estava acontecendo.

Devoro palavras presentes nas páginas dos livros, sinto palavras nas minhas canções favoritas, brinco com palavras enquanto escrevo, firmo palavras enquanto falo. As palavras me rodeiam e me são íntimas: sempre nos relacionamos muito bem. Sei colocar sentimentos em frases escritas, como se os traduzisse, mas tenho consciência da raridade disso. Também tenho consciência de que, se estas palavras não estiverem de acordo com meus comportamentos, não valem nem 1 centavo. Minha mãe sempre diz: “De nada valem as palavras se as atitudes não forem condizentes com elas”.

É. Tem gente que fala coisas lindas, promete o mundo todo, tem o dom da palavra. Mas não age, não move o mundo, não realiza, não sai do idealizado. Fica tudo ali, ao vento. Palavras jogadas no ar, perdidas por aí. Neste momento eu me pergunto: são as palavras ou as atitudes que ficam eternizadas? O que é mais importante?

Sou daquele tipo de mulher romântica que precisa de um agrado verbal ao pé do ouvido, precisa ler um cartão, precisa de palavras que aconcheguem, de provas escritas de sentimento. Eu adoro isso, mesmo. Mas, ultimamente, tenho experimentado algo ainda melhor: faltam palavras, faltam expressões verbais, faltam letras e rabiscos – mas não faltam atitudes. E, apesar da estranheza e de pequenos espasmos de insegurança, estou adorando aprender a viver sem tantas palavras.

Descobri que atitudes também trazem segurança, que atitudes também declaram sentimentos, que atitudes dizem tanto quanto o blá blá blá. Confesso que acho muito difícil desvendar ações e interpretar o que elas significam. Sou poética. Lido melhor com sentimentos diluídos em palavras, com exposição, com intensidade. Mas é absolutamente fascinante aprender a ser segura sem a tão confortável combinação de letras.

Não adianta falar que ama e não demonstrar isso. Não adianta dizer que está com saudade e não abraçar forte na hora que encontrar a pessoa. Não adianta dizer que está apaixonado e passar o tempo todo longe. Não adianta dizer que se preocupa com a pessoa e não cuidar dela quando ela estiver doente. Não adianta falar. Tem que agir. As palavras são lindas, mas estão no vento. A gente não vê. No fim, o que importa é a atitude. A palavra é complemento.

DIAS DE LUTA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.

É. Tem dias. A gente parte pra algum paralelo de nós mesmos, algum lugar que só a gente conhece, só a gente acredita, só a gente vê.  Parte para encontrar nossas dores, nossas dúvidas, nossos medos e angústias mais profundos. Parte para uma parte de nós. Parte pra uma parte que não agrada. Parte pra uma parte que nos esforçamos diariamente para manter distante. Mas essa parte é você.

Somos compostos de opostos. Somos seres duos, a busca de um equilíbrio que, na verdade, é medíocre. Não busque o equilíbrio. Busque entender a parte que você quer distante. Ela também é sua, também é você. Sim, também vivemos dos nossos demônios.

E o morrer? E quando a dor é tanta que queremos desistir? E quando acordar dói, respirar dói, ser dói, aguentar dói, existir dói? E quando a gente se sente como quem morreu? Ah, garota, nessas horas, ache um sopro de vida. Só perceba. Perceba que, apesar da sua morte, há vida ao seu redor. Não se trate como natureza morta, como algo imóvel e estático, incapaz de sair do lugar. Tudo flui. Você flui. A vida flui.

Está tudo em movimento, apesar da sua vontade de permanecer parada. Olha só garota, olha só você. Olha só o poço de virtude que és! Olha só como quantos são os que te admiram, olha só como o mundo não seria o mesmo sem você, olha só como você torna a respiração de muitos mais fácil… Agora, respira você. Respira fundo. Respire vida. Respire o amor que há em mim, em ti, no mundo.

Você é vida, você brilha por dentro. Deixe que seus olhos e seu sorriso funcionem como holofotes. Lute, com armas se preciso for. Você não é do tipo de mulher que desiste. Você luta por tantas coisas… Só falta lutar por você. Com a mesma garra e determinação. Com a mesma paixão e entrega com a qual você luta por tudo que você acredita. Só falta acreditar em você. Eu acredito.

(Para Debora Baldin Lippi Fernandes, amiga de coração e mulher que luta todos os dias por muitos de nós.)

SIMPLES ASSIM

Você sabe que o amor está em tudo, né? Se não sabe, preste atenção. Está em pequenos detalhes do cotidiano. Tão essencial quanto respirar é saber perceber e possuir olhar clínico para os detalhes acolhedores do dia a dia.

É prestar atenção no caminho que você faz todo dia e  reparar que, ali, logo na esquina do local de destino, existe uma árvore absolutamente esplêndida. É, em meio à buzinas e trânsito caótico, ver que o céu está azul e reparar no formato das nuvens.

É sorrir ao ver uma criança se melecando com um sorvete, ao ver um casal de idosos passeando de mãos dadas, ao ver seus melhores amigos dando risada, ao ver seu cachorro dormindo no sofá.

São tantas coisas simples capazes de arrancar sorrisos e tantas coisas doces presentes no que você insiste em degustar amargo… É bom enxergar o mundo em slow motion e full HD. Minucioso e colorido. Chega de preto e branco, chega de velocidade rotineira. Esse mundo precisa de brilho, de gentileza de gestos simples – e principalmente humildes – de sabedoria de espírito.

Veja bem, eu não estou pedindo para vivermos em um mundo cor de rosa e continuamente feliz. Seria muito chato. Nunca quis viver o “politicamente correto”, pois nem acredito que “política” e “correto” sejam palavras que se complementam. Só acho que o otimismo deveria estar presente esporadicamente.

Todo mundo merece passar um dia em paz. Todo mundo merece fazer a diferença. Todo mundo merece viver, ultrapassando a obrigatoriedade de existir. Todo mundo merece sentir, pelo menos algumas vezes, que realmente faz parte deste mundo. Que não é só mais um número, só mais um nome, só mais um registro no IBGE.

As melhores coisas da vida estão na simplicidade. Na comida da avó, na manteiga derretendo no pão quentinho, no copo de Coca-Cola com gelo no verão, no pão de alho assando na churrasqueira, na pergunta curiosa – e, por vezes, hilária – de uma criança, no aconchego do peito no abraço de quem te ama, no beijo na testa, no sorriso espontâneo, nas fotos tiradas, nos pés descalços, no pôr do sol, na música, na dança, na arte, na escrita, na fala, no sussurro, no abraço, no silêncio, no vazio, na lua e nas estrelas.

A lista é grande. E, sim, as melhores coisas da vida estão em infinitas e incontáveis surpresas vindas da simplicidade. É só aguçar o paladar da existência. É só temperar a vida, à gosto. É só saber receber, permitir, ser. É só parar de complicar. Simples assim.

MONTANHA RUSSA

Eu sempre tive um medo danado de montanha-russa. Talvez quem me conheça há muito tempo possa parecer surpreso com essa confissão, afinal, eu era sempre a primeira da fila e a mais empolgada para percorrer os trilhos de aventura e êxtase que existem por aí. Até chegava a verbalizar que não tinha medo. Meu rosto não transparecia o mínimo incômodo. Olha, eu tinha medo sim. Tenho medo sim. Mas também tenho coragem para enfrenta-lo. A coragem sempre foi maior que o medo por aqui.

Quando sento na temida cadeira e me preparo para colocar o cinto de segurança, a primeira coisa que passa pela minha cabeça é: “Que merda que eu estou fazendo aqui?!” É. Tenho vontade de fugir, de desistir, de sair correndo, de ir para casa, para a minha cama, para a minha mãe. Mas algo me impede, algo me força a enfrentar meus piores inimigos. Sempre foi assim. Essa força estranha dando as caras nos momentos difíceis… Acho simpático. Um souvenir da vida.

Eu tenho quase certeza de que enfrentaria todas as montanhas-russas que existem nesse mundo. A intensidade do medo iria variar, assim como os sintomas advindos deste. Mas sim, eu enfrentaria. No final, acaba valendo a pena. A coragem é ótima para a auto estima, por isso saímos sorrindo feito bobos do brinquedo. Só tem uma montanha-russa que ainda me trava e me bota um medão: a que vive dentro de mim.

Toda montanha-russa me traz duas sensações: a do medo e a da liberdade. O medo é de enfrentar o desconhecido e a liberdade é de ter, primeiro me permitido à vivenciar a aventura e, depois, superado o temor com um sorriso largo no rosto. A minha montanha-russa interna não é diferente, não. Também traz medo e liberdade. Ela passeia entre o imediatismo e a calma, com loopings em determinados momentos. O imediatismo é medo. A liberdade é calma.

E olha, se eu tivesse apenas uma montanha-russa aqui dentro, seria bacana. Mas não. Tenho um parque de diversões inteiro! De longe, o brinquedo mais assustador do meu parque de diversões interno é uma montanha-russa que se chama “Relacionamento”. Só de olhar para ela já tenho frio na barriga, borboletas no estômago, arrepio na espinha. Mas eu entro na fila. E entro de peito aberto e cabeça erguida: “Vai dar tudo certo! Eu vou conseguir!” E quero tudo agora. Quero viver tudo de uma vez. Quero ir logo, rápido! Me entreguei, não está vendo? Imediatismo. Medo.

Conforme a fila vai avançando, começo a sentir esse medo chegando. No começo é fácil de controlar, ainda nem sentei na cadeira, ainda nem coloquei o cinto. Afasto os pensamentos ruins rapidinho! A empolgação para viver esta aventura é muito maior que qualquer receio bobo. Conforme vou chegando mais perto da montanha, o medo vai aumentando. Começa a passar um monte de coisa pela cabeça. Penso em desistir. Mas, calma, já vim até aqui, já passei um tempão nesta fila… Acho que devo continuar. E continuo. Um pouco menos imediatista, continuo.

Quando sento na cadeira, a única coisa que penso é em ir embora. O medo é imenso. Quase que toma conta de mim. Mas acho que descobri o que faz toda a diferença para que eu me entregue aos rodopios em trilhos de aço: o cinto de segurança. Segura, eu vou. Checo algumas vezes o cinto, verifico mais de uma vez as travas. Estou segura? Vambora.

Eu enfrentei fila, enfrentei pensamentos, enfrentei medos, enfrentei desespero, quis tudo de uma vez, quis o nada também. Mas, com o cinto de segurança, com as travas fechadas, com a certeza de que aquela cadeira não vai me soltar pelos ares, fica tudo bem. A única coisa que eu preciso é de segurança. Da certeza que não vou despencar, me machucar, acabar espatifada no chão. Chega, finalmente, a calma. E, com a calma, liberdade.

A partir  daí, creio que viramos nós: eu e a minha cadeira. Entre as duas, terá segurança. E assim, podem vir subidas, descidas, loopings. Que venha a adrenalina, a felicidade, a gargalhada. Que venha o vento no rosto, o sorriso largo, a sensação de que o mundo foi ganho. O segredo da montanha-russa é um bom cinto de segurança.

Já sentei na cadeira… Ei! Onde aperta o cinto, moça?

SUSTENTAÇÃO

Eu sustento olhares. Sempre sustentei. Nutre o meu espírito, fortifica minhas relações, confirma presenças de um em outro. Sempre gostei muito de olhar nos olhos, principalmente se apaixonados. Os olhos contém mais palavras do que qualquer dicionário, é capaz de falar mais do que qualquer boca, conta mais histórias do que qualquer velho sábio.

Gosto de mostrar quem sou pelo jeito que olho. Lanço olhares para inundar quem eu amo com fluidos magnéticos e escuros que os acompanham. Sinto que, no momento em que ocorre um verdadeiro encontro de olhares, há um troca. Questão de alma. Algo de energético e enigmático.

Acredito que não tem como saber como alguém é por dentro, ali – na essência – sem ultrapassar retinas e pupilas, sem mergulhar na fonte de toda a pureza das respostas que jamais podem ser verbalizadas, sem se deixar envolver pelo magnetismo dos polos opostos que existem no teu olhar e no meu.

É claro que, para desvendar um olhar, é preciso intuição. A verdadeira troca só ocorre quando há sintonia, só ocorre quando ambos os indivíduos se entendem, sem que nem uma palavra precise ser dita. De todas as coisas mais belas e singelas do mundo, ainda acredito que a troca de olhares está no topo da lista. Eu gosto de levar olhares como amuleto, como poesia, como a parte mais bonita que se pode levar de alguém.

Sustente olhares você também. Sinta o que o olhar do outro quer te dizer. Saia do conforto das palavras, procure algo mais. Permita ser olhado como se fosse a primeira vez que te enxergam. Olhe também, como se sua alma fosse sair pela retina. Use os olhos como holofotes. Deixa brilhar, deixa emitir, deixa estar. Sustentação, eu recomendo.